domingo, 27 de setembro de 2009

A vida é uma ópera

"Uma noite, depois de muito Chianti, repetiu-me a definição do costume, e como eu lhe dissesse que a vida tanto podia ser uma ópera como uma viagem de mar ou uma batalha, abanou a cabeça e replicou:

A vida é uma ópera e uma grande ópera.(...)

Deus é o poeta. A música é de Satanás, jovem maestro de muito futuro, que aprendeu no conservatório do céu. Rival de Miguel, Rafael e Gabriel, não tolerava a precedência que eles tinham na distribuição dos prêmios. Pode ser também que a música em demasia doce e mística daqueles outros condiscípulos fosse aborrecível ao seu gênio essencialmente trágico. Tramou uma rebelião que foi descoberta a tempo, e ele expulso do conservatório. Tudo se teria passado sem mais nada, se Deus não houvesse escrito um libreto de ópera, do qual abrira mão, por entender que tal gênero de recreio era impróprio da sua eternidade. Satanás levou o manuscrito consigo para o inferno. Com o fim de mostrar que valia mais que os outros, — e acaso para reconciliar-se com o céu, — compôs a partitura, e logo que a acabou foi levá-la ao Padre Eterno.
— Senhor, não desaprendi as lições recebidas, disse-lhe. Aqui tendes a partitura, escutai-a, emendai-a, fazei-a executar, e se a achardes digna das alturas, admiti-me com ela a vossos pés...
— Não, retorquiu o Senhor, não quero ouvir nada.
— Mas, Senhor...
— Nada! nada!
Satanás suplicou ainda, sem melhor fortuna, até que Deus, cansado e cheio de misericórdia, consentiu em que a ópera fosse executada, mas fora do céu. Criou um teatro especial, este planeta, e inventou uma companhia inteira, com todas as partes, primárias e comprimárias, coros e bailarinos.
— Ouvi agora alguns ensaios!
— Não, não quero saber de ensaios. Basta-me haver composto o libreto; estou pronto a dividir contigo os direitos de autor.
Foi talvez um mal esta recusa; dela resultaram alguns desconcertos que a audiência prévia e a colaboração amiga teriam evitado. Com efeito, há lugares em que o verso vai para a direita e a música, para a esquerda. Não falta quem diga que nisso mesmo está a beleza da composição, fugindo à monotonia, e assim explicam o terceto do Éden, a ária de Abel, os coros da guilhotina e da escravidão. Não é raro que os mesmos lances se reproduzam, sem razão suficiente. Certos motivos cansam à força de repetição. Também há obscuridades; o maestro abusa das massas corais, encobrindo muita vez o sentido por um modo confuso. As partes orquestrais são aliás tratadas com grande perícia. Tal é a opinião dos imparciais.(...)
Esta peça durará enquanto durar o teatro, não se podendo calcular em que tempo será ele demolido por utilidade astronômica. O êxito é crescente. Poeta e músico recebem pontualmente os seus direitos autorais, que não são os mesmos, porque a regra da divisão é aquilo da Escritura: "Muitos são os chamados, poucos os escolhidos". Deus recebe em ouro, Satanás em papel.
(...)


Tudo é música, meu amigo."
(Machado de Assis - Dom Casmuroo - Capítulo IX: A ópera)

Olá, meus queridos Amigos.
E desculpem-me pela demora, eu já deveria ter escrito algo nesta página há algumas semanas, a pedido do nosso querido William.
Peço já no começo que não me julguem pelo texto base. Sim, é verdade que, para mim, qualquer texto de Machado seria consagrado como algo quase que divino. Mas não se deixem enganar, há muito mais que divino nas palavras de nosso "Mestre" (e que Deus não me julgue pelo modo da expressão, já que muitos concordam que Deus fala através dos poetas, nos entendemos depois).
Mas gostaria de propor agora uma análise do texto em relação ao momento que se dá em nossas vidas (não que Machado escrevesse pensando em nós, que ilusão daqueles em que essa idéia fútil passou pela cabeça, mas já esclareço aqui para que não se leve adiante).

Comecemos pelo títuloo. Vic com certeza, se reformulasse-o nos dias de hoje, iria propor algo como "A vida é um show de Rock", ou a Lála gostaria de um "A vida é um conto de fadas". Desculpem-me se as desagrado, minhas queridas! Mas sim, a vida é uma ópera, e o vestibular é um dos movimentos mais impactantes do todo.

Deus é o poeta. Digamos que não há qualquer outra pessoa que seja capaz de escrever nosso destino nesse momento. Ninguém tem certeza do que nos espera, somente aquele que arquiteta o todo. E não se enganem, ao julgarem Satanás. Afinal, ele era um anjo. Alguém talvez como nós, que se dedicava àquilo que lhe propunham, mas que talvez não concordasse com tudo. E a adolescência é uma fase em que sentimos a mesma vontade: renunciar a tudo que nos parece errado, atrasado. Satanás não nos representa, neste caso, o errado. Ele representa a DÚVIDA. É a incerteza de todas as letras que ainda não lemos nas páginas de nossas vidas. E a música... Ah, a música! Essa é aquilo que nos conduz nas linhas, o que nos faz passar por todos os h's, os acentos agudos e as crases, ou nos reduz às reformas ortográficas. Assim como o poema, a harmonia pode ser alterada, o tom, a velocidade, ou a interpretação.
Não é possível entendê-la. Somos guiados por um maestro de talento, sim verdade, mas ainda inesperiente. Exigir dele a pulsação exata, ou a entrada sincronizada não seria digno. Lembrem-se, somos como ele, também regemos pela primeira vez, também erramos, também perdemos o compasso, e (muitas vezes) pioramos o resultado final quando tentamos recuperá-lo(talvez a melhor saída fosse esquecer do segundo destoante e continuarmos fixos na partitura); e para um público um tanto exigente: pais, professores, amigos; e para o pior crítico musical já existente: nós mesmos (ele nunca está satisfeito).

E agora, vamos ao fato, talvez, mais revoltante. Não-há-ensaios. E ponto. não, meu querido leitor. Não tente contestar. Gastará saliva, cansará sua mente, perderá as palavras. Pare. Reflita. ... Mais calmo? Continuo daqui! Não-há-ensaios. E o crítico está lá. Sentado na primeira fileira. E quem disse que deveria sair perfeito? "Talvez nisso esteja a beleza". Não saber como será o dia seguinte, ensaiar as palavras certas em frente ao espelho e, na hora, elas saírem ao contrário e sem controle (quando saem, convenhamos), ou esperar por um pedido de namoro por meses e ele não vir (você arquiteta quase que todos os dias maneiras de receber o pedido, mas não, NÃO depende de você). Quem mandou estudar composição, e não letras?? Você é apenas um pequeno maestro, talvez um simples músico do corpo orquestral, e não o escritor.
Faço aqui uma pausa para uma questão pessoal: Meu querido João, se você lê esse pequeno desabafo, não se julgue! Estamos falando de esperanças, e de vida! Ninguém deve ser perfeito, a beleza está nos descompassos. Mas você também saberá um dia que tudo fica mais sensível no último ano. Não devemos sentir vergonha de dizermos a verdade, seja pelo meio que optarmos. Não gaste seu tempo pensando em como teria sido, continue andando para frente ( e espero que eu ao teu lado). Voltemos ao principal.

Mas o crítico sempre está lá, na primeira fileira. No dia seguinte, você encontra na primeira página no jornal de maior circulação (a sua mente) a chamada: "Após uma hora de atraso, o 'espetáculo' mostra-se fraco, os músicos despreparados e a harmonia mal conduzida. Enviem a criança que apresentaram como maestro de volta para o CURSO". Sim, o CURSO! O tormento geral do terceiro ano. Confesso que também temo somente a pronúncia da palavra, escrevê-la então... (Assinar aquele termo de reserva de vaga foi como abrir o jornal e procurar pela página em que se dava a crítica completa). Como já diria meu querido Rafael, " Todos gostariam que a vida fosse como um filme. Mas ela é o making-of".

"Muitos são chamados, poucos os escolhidos". Preciso dissertar? Você também é 'convidado' a prestar o vestibular. Será escolhido para cursar a faculdade que deseja? Não queremos aceitar, mas talves sejamos realmente novos para entrarmos agora na universidade. Fazer mais um ano no ETAPA talvez não seja esmagador, já estamos tão acostumados, e não teríamos mais provas... mas... e a sua mente? Três anos 'gastos' ...(SIM, gastos, ou melhor, desgastados. Quem ainda está inteiro? Quem não criou stress, aumentou o número de espinhas, engordou, diminuiu sua taxa de linfocitos, leucocitos, ocitos ocitos, ócio! Alguém ainda possui tempo ócio?).

Mas a vida continua. A música continua.


Considerações finais: não é pessimismo. É apenas um desabafo.

4 comentários:

  1. E aquele crítico, o mais humilde e menos importante levanta-se e bate palmas.
    Brilhante Táta!!!

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  2. Ahh amor! Obrigada! E não, não é o menos importante! Com certeza, um dos mais renomados!
    S2 you!

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  3. Adorei o texto, Tata!
    ainda bem q eu perdi uns quilinhos e as espinhas com etapa (xD)... e só ganhei amizades sinceras e momentos inesqueciveis!
    Talvez nem todos tenham sido chamados: a hora ainda não chegou. Seja por falta de maturidade ou pela mais pura indecisão! Mas, em algum momento,ouvirão seus nomes pronunciados!
    Bem vinda ao Aphélio!
    Grande beijo

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  4. Táta!! reconhece-se Machado de Assis de longe...ótima escolha, ótimo paralelo!

    Parabéééns!

    beeijo!
    =**

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