segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Nos bailes da vida. Nos bares da vida.


Eis-me aqui, entre livros de estatística - sim! estatística literária e lingüística, se isso melhora aquilo que já mencionei - muitos dos quais em línguas que não a minha... Seriam azuis-turquesa essas línguas?

Oras, eis-me aqui entre livros de estatística a tentar fazer meu trabalho de estatística, mas, longe disso, deparo-me comigo mesma a questionar línguas. E não, não se tratam de questionamentos sobre sua origem, sua relação com a sociedade em geral, com os falantes em sua individualidade e em sua gramática interna e em seu idioleto. A questão é meio Dalí. É meio Magritte. E até meio Miró, porque azul é a cor de seus sonhos.

Enfim, nada disso vem ao caso daquilo que há quase um mês me obrigara a escrever. Só que os dias passaram. Outras idéias vieram. Mas, aquela ficou, brotante que foi em uma tarde de sábado de um mês qualquer que todos já sabem qual é. Nesses dias me descobri dotada de alguns poucos heterônimos. Mas, esse não é o assunto para esse texto, de modo que é assunto para um texto outro.

Aqui estou a fantasiar um pouco - afinal, o que mais sei fazer? o que mais me dá prazer fazer? - mas se o cenário não é assim tão real quanto gostaria minha sã consciência que às vezes atrapalha, o que surgiu daquilo-nada-fantasioso que vi teve desdobramentos tocáveis. Palpáveis.

Hoje escrevo como um esguicho de água, escrevendo muito daquilo que dá vontade. Talvez por isso pareço escrever pouco daquilo que deveria escrever. Talvez por isso o tal trabalho custe a escorrer de minhas mãos já cansadas de tantos virares de página e de tantas teclas. Plóc-Plóc. Tóc-Tóc, não isso é porta! Téc-Téc. Qual seria a melhor onomatopéia para isso?
Hoje não estou conseguindo dar conta desse turbilhão que são mente e linguagem. Juntas!

Hoje escrevo como as águas de alguma cachoeira. Era assim também que falavam as pessoas daquele restaurante, e também assim levavam seus talheres à boca, mas isso é assunto para outra linha. Falavam pelos cotovelos, se é assim que dizem. Eu muito falo pelos cotovelos.
Não se deram conta de que estavam diante de um violão a tocar.

Imediatamente me pus a pensar se tinha dó do senhor que tocava e parecia até ser passível de encantar, daquelas pessoas da sala de jantar ocupadas em nascer e morrer e comer e falar, devo dizer, daqueles míseros mutantes (não, não merecem um M como Rita Lee merece), ou da música, muito mal-tratada naquele dia. Tão mal-tratada em tantos outros.

Não, não deveriam haver cantores contratados em bares e restaurantes que não atraem as pessoas por sua música. Os músicos não merecem isso. Lembram-se da minissérie da Maysa? Ela jogou seu sapato na mesa de alguns clientes que a haviam trocado por picanha.
Se penso assim dos músicos foi porque naquele sábado fatídico me veio a voz de Milton na alma: "Foi nos bailes da vida ou num bar em troca de pão que muita gente boa pôs o pé na profissão de tocar um instrumento e de cantar, não importando se quem pagou quis ouvir, foi assim."
Foi assim, mas não deveria ser.

Acabo todo esse aglomerado de coisas que talvez não agrade muito, mas espero não desagradar a todos, dizendo: "Longa vida à Música!" - a qual também merece um M como o de Rita.
Desmerecer um músico é desprezar a música. Infelizmente, alguns músicos a desprezam eles próprios. Claro que isso não é absoluto. Mas, faz-me sentir falta do tempo em que todos tratavam a música com mais respeito. Não que minha pessoa muito entenda de música, pelo contrário, não é isso...

É que outro dia vi um documentário sobre o Pink Floyd. Em uma entrevista, Roger Waters disse que viviam para a música. PARA.
Meu apelo é que aqueles que ainda não fazem isso parem de viver da música.
DA.

"Cantar era buscar o caminho que vai dar no sol." - Milton Nascimento

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